21 fevereiro 2010

Primeiros Momentos ** Na Beira e a 1ª Noite


Vista parcial da cidade da Beira

Se ajeitaram nas cadeiras do avião, para o percurso final, não se ouviam conversas no início do voo, era a parte final do percurso.

Carlos começou a recordar os ensinamentos de que tinha sido imbuído nas longas palestras como tratar o africano, a sua maneira de ser e até mesmo como era a dispersão das diversas línguas faladas, as demonstração iam desde a maneira de vestir, estar e organização social das diversas etnias. Não poderia dizer que não tinha conhecimento das gentes africanas, mas uma coisa era os livros, o contar de experiências, outra era encontrar a própria natureza viva e esse desconhecido lhe proporcionava algum mal estar, fora educado para controlar e não a ser controlado, gostava de saber sempre o terreno que iria pisar e tudo para ele era como desconhecido, apesar da preparação se sentia algo inseguro.

Passado algum tempo de voo, lá foi servida um ligeira refeição que a Carlos, mais pareceu um pequeno lanche, ainda pensou. É preferível a barriga mais vazia que cheia e sorriu para si mesmo da azougada ideia de à chegada não existir nada para comer ou beber, visto a hora tardia da chegada.

Mergulhado nos pensamentos do que encontraria no final do voo adormeceu.

Acordou, com uma valente cotovelada, que o Cabo-Verdiano lhe deu. Acordou de olho arregalado e levemente dorido, virou-se para o companheiro de cadeira.

- Porra, essa doeu.
- É para não te esqueceres de mim, do preto que te pôs as costelas dentro para te acordar. E se riu o Cabo-Verdiano, que de preto tinha pouco.
- Preto, mas tu não és preto Pá. Retorquiu Carlos
- De todo não, Mas tenho mais café no sangue, que leite. Disse enquanto sorria o Cabo-Verdiano, o que fez Carlos rir também
- Mas onde é o fogo então. Disse Carlos
- Nos estamos a aproximar da Beira,
- Caramba, ainda dormi um bom bocado disse Carlos.

O Avião iniciou a descida e a aproximação à pista do Aeroporto Internacional da cidade da Beira.


Aeroporto da Beira

Desta vez o tocar no solo não foi tão suave como em Luanda, a travagem foi mais brusca, os motores fizeram-se se ouvir com mais potência e uns solavancos se sobressaíram.

- É pá, era bom, eu ficar na Beira a tapar estes buracos. Afirmou Carlos com um sorriso de circunstância.
- Não querias mais nada disse o Cabo-Verdiano.
- E agora como é? Perguntou Carlos
- Sei tanto como tu, mas não tarda ficamos a saber as linhas com que vamos nos coser.
- Tu queres dizer, com nos vão cozer com “z”.
Riram os dois da peregrina ideia que Carlos teve.

O Cabo que estava a servir de comissário de bordo se aprontou para abrir a porta do avião para o desembarque. Carlos ia à frente do Cabo-Verdiano, ao chegar à porta e no inicio da escada parou, o sufoco do ar era grande e ele ficou todo transpirado e de imediato sentiu a camisa toda alagada, apesar de ainda estar com uma camisola interior de protecção contra o frio da madrugada no embarque. Lhe deu logo a vontade de retirar a gravata, olhou se algum a tirava, como ninguém a retirava a manteve, deu para ver que todos os outros tinham sentido o primeiro choque africano. Existia no ar um cheiro diferente do cheiro da metrópole, aqui era um cheiro intenso a terra e com odores que não conseguia ainda atinar.

Percorreram o espaço do avião até à aerogare num autocarro, onde todos iam de pé, não existiam lugares sentados.
O Autocarro parou frente da aerogare e todos em fila para lá se dirigiram, não existiu alfândega, nem controle de documentos de entrada.

Carlos parou no grande átrio de entrada e saída do aeroporto, e tentava vislumbrar a existência de algum atendimento, mas tudo estava fechado.
Com ele estava o Cabo-Verdiano.

- E agora?
Atirando a pergunta para o ar, Carlos ia movimentando a cabeça de um lado para o outro na tentativa de saber os passos a seguir. Mas não encontrou resposta à pergunta, junto a eles chegou o de Almodôvar.

- É pá, como é a partir daqui? Dirigindo a pergunta a Carlos.
- Estamos cá todos, acho eu. Acabou por dizer o Cabo-Verdiano.
- Vamos esperar para ver. Disse Carlos, enquanto puxava por um cigarro, o mesmo fez o de Artilharia.

Não tardou se ouviu um altifalante.
- Senhores Sargentos, os aguarda uma ‘Berliet”, para os levar para a messe de Sargentos.
O Mesmo se passou com os oficiais e praças, cada um com destino próprio.
O de Artilharia, virou-se para Carlos e para o Cabo-Verdiano.
- Lá vamos nós.
Se dirigiram à porta da saída do Aeroporto, ainda não tinham percorrido metade da gare, quando foram interpelados por um indivíduo à civil que os interrogou.
- Vocês querem trocar algum dinheiro vosso, notas de Moçambique.
Carlos sorriu, na abalada um cigano, à chegada um a negociar dinheiro, isto vai de mal a pior pensou Carlos
- Dou vinte por cento mais, por cada cem escudos da Metrópole dou cento e vinte escudos de Moçambique, não tenham receio, sou furriel tal como vocês e tratou de mostrar o cartão militar.
- Tens de dar mais um pouco disse Carlos.
- Não, é tudo o que posso dar.
- Nada feito, retorquiu Carlos.
- Olha, fazemos negócio, e eu levo vocês à messe, ou a onde quiserem ir.
- Onde nós quisermos ir?
- Vais ver, que quando chegares à messe, o Sargento da Guarda, vai dizer que não tem camas disponíveis e que se desenrasquem e terão de ir procurar hotel. Sei isso porque me sucedeu o mesmo e já lá vão dois anos.
- Mas de que arma és tu. Interrogou Carlos.
- Transmissões
- Mas isso é Engenharia disse Carlos.
- Pois é, mas já estou a terminar a comissão.
- Então porque andas a trocar a Massa.
- Para a vender aos Indianos e ganhar mais uns cobres, depois coloco a massa na minha conta da Metrópole. E ali mesmo deu uma breve explicação de como as coisas se passavam com o capital.

- Ok. Te dou dez contos (Dez Mil Escudos) e me dás doze em moeda moçambicana, está feito. Logo foi feita a troca. O Cabo-Verdiano e o de Almodôvar aproveitaram a deixa e trocaram dez das grande cada um.

Foram todos para o carro do de Transmissões, a Estrada não era muito larga e a noite estava escura, os faróis iam iluminando o bordejar da mesma, mostrado frondosas árvores. O carocha (wolksvagem), lá se ia aguentando com a carga, mesmo nos arranhões que levava na caixa de mudanças e dos “raters” que ia dando.
- É pá este carro, faz um cagaçal dos diabos no escape. Se referiu Carlos à barulheira que o carro ia fazendo.
- É gasolina de avião, disse o de Transmissões.
- Porra, usas a tropa em tudo. Disse Carlos
- Tu vais aprender, que aqui o que vale mais é o desenrascado.
- Estiveste no Norte?
- Mueda, Cabo Delgado, depois me mandaram para aqui e estou no fim, mas não volto para a Metrópole, conheci uma mulata e vou ficar por cá.
- Eu vou para Mueda, disse o Cabo-Verdiano
- Desde que não saias de lá, não é mau, aquilo é terra de Macondes, e Maconde não é bom, logo aprendes.

- Ainda não percebi bem essa história do dinheiro. Disse Carlos, explica lá isso melhor.
- É simples, eu mando o dinheiro que me deixam enviar para o meu pai levantar lá, ele levanta o dinheiro e mo manda novamente dentro de latas com chouriços, vendo os chouriços e troco pelo dinheiro de cá, o dinheiro moçambicano o volto a trocar com vocês que vão chegando e precisam de trocar a massa, só te posso dizer que já ganhei para esta lata e já quase chega para comprar uma casa.
- E o que vais fazer cá, quando despires a farda?
- Já tenho emprego garantido numa empresa que vende equipamento electrónico para embarcações e a mulher já trabalha numa companhia de seguros.
- Tens a vidinha já definida, não?
- Já isto por cá é melhor, que em Portugal.

Firam todos em silêncio, o condutor do “carocha peidão” e os maçaricos acabadinhos de chegar a terras africanas.
Chegados à messe, o de Transmissões, acompanhou os três á Messe e como ele tinha preconizado, não existia disponibilidade de camas, muitos mais estavam lá, sem saber o que fazer e iam recebendo indicações sobre pensões por ali perto e da hora que se deviam de apresentar no outro dia.

- Eu levo-os a um pequeno hotel, limpo e barato de uns minhotos, vocês ficam bem instalados e não apanham sarna, que é o que mais se apanha nesses hotéis de passagem.
- Por mim confio em ti.
O Cabo-Verdiano e o de Almodôvar anuíram.
- Começamos os três, enquanto estivermos juntos, não nos vamos separar. Disse o de Almodôvar.
- Riram os quatro.

O de Transmissões os levou a um pequeno hotel, arejado, ar condicionado, bar refrigerador no quarto e que não acharam muito caro.

- Vão tomar banho que estão todos suados, vistam uma roupa civil e voltem aqui, que eu os levo a comer num bar para Europeus.
Subiram aos quartos, pelas escadas que elevador não existia, apesar de terem ficado num 3º andar.
Depois do banho e da troca de roupa e uma rápida aparadela à barba voltaram os três para o encontro combinado.

- Vamos lá então comer qualquer coisa, vamos perto do Porto a um bar que tem sempre, bom marisco, peixe ou carne e só fecha pelas duas, eu depois os trago ao Hotel. Disse o de transmissões
- Toca a mexer então. Disse Carlos.

Chegados ao Bar, o de Transmissões cumprimentou o do Balcão e falou.
- Caneca para mim, para os meus amigos, gigante e cerveja.
Carlos, o Cabo-Verdiano e o Almodôvar se entreolharam com o á vontade do Transmissões. Nada disseram, deixaram correr o marfim, para ver o que era essa coisa do “Gigante”.
O do Bar colocou quatro canecões de um litro de cerveja cada, no Balcão frente a cada um e falou qualquer coisa para a cozinha que nenhum percebeu. Colocou uns pratinhos com tremoços e azeitonas no Balcão.
- Tremoços, azeitonas? Interrogou o de Almodôvar.
- Quem vem mais a este bar são portugueses europeus, e azeitonas e tremoços são coisas mesmo nossas, por isso este gajo tem sempre cá disso, as manda vir da Metrópole.
Os “maçaricos” ou “checas” como eram tratados os que chegam pela primeira vez a Moçambique, anuíram na explicação dada pelo de Transmissões, ainda nem meio pratinho da saudade tinha sido deglutido, quando o do Bar, apresenta a cada um, prato com dois camarões Gigantes (Tigre) que tinham sido passados pelas brasas, vinham abertos ao meio e regados com bastante manteiga. Colocou sobre a mesa três pequenos frascos de molho picante.
- Este é feito cá em casa é do bom. Disse o do Balcão e foi atender outros que iam chegando.
- Cuidado com isso, pica que se farta, não faz mal, mas dá um aquecimento do caraças.
- Todos riram. Colocaram um pouco de picante nos bichinhos.

Conversa puxa conversa e mais conversa, e mais um canecão para cada um e mais um prato dos tais gigantes.

Estavam todos bem dispostos, quando Carlos interroga o Transmissões.
- É pá, diz-me cá, só vives destes expedientes.
- Eu ainda estou na tropa, mas preciso da casa, tu não perdes nada, pelo contrário só ganhas, não andas por aí perdido e a comer porcarias, aonde te trago são pessoas sérias, não te levam mais por isso e eu vou ganhando uns trocos.
- Queres dizer percentagem pela despesa?
- Sim, mas a minha despesa é por conta da casa, só pagas a tua e ao preço da casa, ganhamos todos.
- Á minha custa.
- Repara que a terias de fazer na mesma.
O Almodôvar que estava atento à conversa.
- Na verdade tens razão, se aqui viesse sozinho ou me apresenta-se no hotel, tinha a mesma despesa.
- Por mim está tudo bem. Disse o Cabo-Verdiano já aquecido com os dois litros de cerveja no buxo.

Mas a noite ainda mal tinha nascido, ainda era criança.
- Bem agora pago eu a primeira rodada, mas não aqui, noutro lado, para vocês não esquecerem a vossa primeira noite em África.
- Vamos lá então. Disse Carlos que estava descansado, só tinha trazido um conto dos dez, pois como medida de precaução tinha deixado o resto no quarto de hotel.

Os primeiros momentos e as primeiras sensações estavam adquiridos. A partir de agora “vamos lá cambada todos à molhada” era o pensamento positivo de Carlos a funcionar no pleno.

Continua….

Karl d'Jo Menestrel
21/02/2010

15 fevereiro 2010

Primeiros Momentos ** Luanda

Baía de Luanda no inicio da noite

Depois de servido o almoço, um prato de fatias finas de carne assada com puré de batata, regada com laranjada e um café no final.

Carlos ainda fumou um cigarro no fundo do avião onde estavam outros camaradas, necessitava de esticar um pouco as pernas, até aquele momento o voo tinha decorrido sem qualquer incidente.

Tomou conhecimento com outro camarada, este da Arma de Artilharia, ora a Escola Prática de Artilharia ficava somente a 55 km de Évora em Vendas Novas.

- Como te está a correr a viajem, iniciou Carlos, para meter conversa.
- Doem as pernas de tanto estar sentado, e tu?
- Um pouco dorido, mas nada de anormal, tinha que as estender, por isso vim até aqui para circular um pouco.
- Já reparaste que vai também um Brigadeiro disse o de Artilharia
- Não, onde!
- Lá mesmo em frente, logo a seguir á cabine do piloto.
- Isto calha a todos, retorquiu Carlos.
- Donde és?, perguntou o de Artilharia
- Évora e tu?
- Sou de Almodôvar, sabes onde fica?
- Sei depois de Beja, para o lado da raia, no caminho para Castro Verde, à esquerda.
- È isso.
- Para onde vais, perguntou Carlos
- Para Cabo Delgado, Mocimba da Praia.
- Vais em rendição individual? Eu vou substituir um Segundo de Engenharia em Vila Cabral no Norte de Moçambique.
- Isso é no Niassa não é? Perguntou o de Artilharia.
- É, mas não fica perto do Lago, a Companhia cobre toda a Província do Niassa e está agregada a um Agrupamento em Nampula.
- Estás com sorte, ainda ficas em Nampula
- Era bom era, afirmou Carlos.
- Onde estás sentado?
- Pouco à frente da asa, e tu?
- Junto à asa
- Então estamos perto, como tens sentido a viajem? Voltando Carlos ás perguntas.
- Bem, nunca tinha andado de avião, mas vai-se bem, apesar de ser um pouco cansativa e de nos podermos mexer pouco.

Vai chegando perto deles o Cabo-Verdiano, que aproveitou também para esticar as pernas, as apresentações da praxe desta vez iniciadas por Carlos, tomando logo o de Artilharia a iniciativa de tomar conta da conversa.

- Isto vai ser bom para ti. Dirigindo-se para o Cabo-Verdiano
- Porquê? Por ir para um hospital, nada garante que lá fique. O hospital é uma espécie de depósito, depois de me apresentar, posso ir substituir um diabo, a um qualquer buraco no mato, não é tão fácil assim, e sobre ir para a mata, se a companhia for, tenho que avançar também, tu pensas que maqueiros e enfermeiros têm vida fácil, não é bem assim, se ficar no hospital, aí sim a vidinha cá do rapaz é outra, por enquanto é tudo uma incógnita a vossa e a minha.
Carlos para desanuviar, perguntou.
-Está alguém á vossa espera na Beira? Como se vai se processar a nossa chegada, já que só nos temos de apresentar em locais diferentes no Norte e não na Beira?.
- Não sei como se vai como vai ser a chegada, mas deve ter alguém para dar alguma indicação. Disse o de Artilharia
- Não sei bem, mas devemos de ir ter à messe de Sargentos para comer e dormir e ali alguém deve dar umas dicas não? o que achas tu disse virando-se para Carlos.
- Coloca mais hipóteses na mesa e vais ver que não é nada disso, eles têm de ter alguém que dê informações. Sabes onde é a Messe?
- Eu não? Aquilo não deve ser uma aldeia, e que eu saiba Aeroportos Internacionais e com bastante movimento, não ficam no centro da cidade, por isso não vou pensar nisso, quando lá chegar logo veremos como é, vocês sabem se dão de jantar?
- Duas refeições, vê lá se queres um lanchinho, uma cerveja com uma sandes de leitão, serve? Disse o de Artilharia
Riram os três, eles já sabiam como as coisas se passavam na tropa. Carlos replicou.
- Se nada mais houver, começas cedo a comer ração de combate que te lixas.
- Não era assim tão mau, o problema é que azeitamos isto tudo com as latas de sardinha.
Voltaram os três a rir com a ideia da ração de combate para o jantar.
O de Artilharia mudou o rumo à conversa.
- É pá, há pouco estive a pensar que provavelmente, ficamos em Luanda e só partimos amanhã para Moçambique, é que já é noite em Luanda quando lá chegarmos.
- Achas? Disse Carlos e continuou
- Eu penso que é uma escala técnica para meter gasosa e continuar viajem. Olhem descolámos ás 11:30 mais 8:00 dá 19:30 nossas mais 1 horas de diferença dá 20:30 em Angola e em Moçambique são 21:30, não sei é quanto tempo demora esta porra de Luanda à Beira.
- És capaz de ter razão, o voo tem como destino final Moçambique, deve ser mesmo escala técnica, não tem sentido levar maralha para Luanda e carregar mais malta para a Beira, isto é directo. Disse o de Artilharia
- É pá será que a malta estica as pernas em Luanda, ou ficamos na lata o tempo todo?.
O de Artilharia e Carlos encolheram os ombros, indicando assim que nenhuma ideia faziam do que se iria passar em Luanda.
O de Artilharia e Carlos, fumaram mais um cigarro e continuaram os três na conversa, quando os cigarros terminaram foram para os seus lugares.

Já sentados, o Cabo-Verdiano disse para Carlos.
- Vou passar pelas brasas, a noite vai ser longa pelo que vejo.
- Consegues dormir? Disse Carlos
- Já dormi e vou continuar, vê lá se dás o beliscão com menos força?
- Desculpa pá, não foi beliscão, foi uma cotovelada, na próxima mando a hospedeira acordar-te. Disse Carlos enquanto sorria.
Mas também Carlos acabou por dormitar.

A Voz do altifalante, se fez ouvir novamente, era o Comandante indicando que estavam a se aproximar de Luanda e que estavam 28 º na área do aeroporto.

O Cabo-Verdiano acordou e Carlos também, Carlos não deixou a passagem em claro.
- 28 º e às 8 horas da noite! Porra a coisa é quente mesmo.

Se faz ouvir agora a voz do comissário, para os passageiros irem para os lugares, endireitarem as cadeiras, apagarem os cigarros e apertarem os cintos.

Carlos virou-se para o Cabo-Verdiano,
- Jantar “nikles”
- Já era de esperar, vais ver, vem ração de combate a caminho de Moçambique.
- Venha o que vier, “morre”
Riram os dois e se aconchegaram nas cadeiras. Era a primeira vez que Carlos iria aterrar num avião, se encontrava expectante.

O Avião começou a descer, Carlos começou a vislumbrar lá muito em baixo, as luzes que provinham do casario, o Avião baixando e Carlos não tirava o nariz da janela.

- É pá Luanda é bonita toda esta vista, olha aquilo. Era a lindíssima baía de Luanda, um espectáculo fantástico que o deslumbrava.

O avião faz-se á pista, Carlos vê da janela toda a aproximação da aeronave, no momento em que o avião aterra sente os solavancos provocados pela travagem na aterragem, nada de especial se passa, o avião já rola na pista, sente-se fortemente o barulho dos motores, depois tudo se acalma, o avião rola suavemente para junto de uma aerogare.

“Senhores passageiros, queiram ficar nos vossos lugares com os cintos apertados e não fumarem, estamos executando uma escala técnica de trinta minutos para reabastecer e continuar o voo para Moçambique”.

- Em Luanda, enlatados e presos ao banco, no mínimo, que nos deixassem cheirar o ar de África. Disse Carlos para o camarada de cadeira.
- Quanto tempo nisto?
- Sei lá. Disse Carlos e continuou.
- Quantos litros levará o bicho nas asas?
- Não sei mas devem ser muitos, retorquiu o Cabo-Verdiano

Carlos pela janela viu dois Camiões grandes de uma companhia de combustíveis, aproximando-se do “Boeing”.
- Olha pela parte de baixo, deve levar uns 30.000 litros de combustível.

Passaram-se trinta longos minutos, quando o altifalante voltou a se ouvir, “Queiram endireitar as cadeiras, o voo vai continuar e terá a duração de 2:30h até ao aeroporto da Beira em Moçambique”.

O Cabo-Verdiano deu um ar de graça.
- Vamos lá prá guerra que estar enlatado não tem graça.
- Carlos sorriu, ajeitou-se na cadeira preparando-se para levantar do voo.

E iniciou um cálculo para a hora da chegada

19:30h nossas mais 2 horas de diferença dá 21:30 em Moçambique, com mais 02:30 para a Beira dá 24:00, virou-se para o Cabo-Verdiano.
- Com sorte e vento pelas costas ainda chegamos hoje à Beira, não tarda nada e dão uma ração de combate à maralha.
- O Cabo-Verdiano, nada disse, só anuiu com a cabeça

Karl d'Jo Menestrel
14/02/2010

12 fevereiro 2010

Primeiros Momentos * * Durante o Voo

Imagem de despedida de Lisboa (Actual ponte 25 de Abril, na altura denominada ponte Salazar)

Carlos retirou o cinto, que o ajustava na cadeira quando existiu autorização para tal, ajeitou-se no assento, puxou por um cigarro que acendeu de imediato e ofereceu o maço ao moço que seguia a seu lado, um mulato Cabo -Verdiano Furriel enfermeiro.
- Queres um cigarro?
- Não, não fumo, obrigado.
- Incomoda-te que fume?
- Não pá, fuma á vontade, replicou o Cabo-Verdiano.
 Na altura não havia tantos africanos em Portugal como hoje em dia, Carlos volta à conversa enquanto saboreava o cigarro.
- De onde és?
- Sou Cabo-Verdiano da cidade da Praia.
-E a tua especialidade? Pergunta Carlos.
- Enfermeiro
- Eu sou Sapador de Engenharia e vou para Vila Cabral em Moçambique, e tu?
- Vou também para Moçambique para o Hospital de Mueda.
- Vou para uma companhia de Engenharia, replicou Carlos
Feitas as apresentações, ficaram os dois mudos, Carlos continuou fumando o cigarro enquanto olhava pela janela do avião, só via nuvens por baixo, estranhava não ver mais nada que não o sobre voo sobre os castelos de nuvens.

Terminou o cigarro e voltou a dirigir-se ao mulato.
- Os gajos dão qualquer coisa para trincar, ou é a seco até Luanda, ainda são algumas boas horas até lá?
- É pá não sei, quando vim de Cabo-Verde para cá, deram um prato de carne e era menos tempo, mas também foi na TAP (Transportes Aéreos Portugueses) agora com a tropa, não sei.
- A carne para canhão é tratada a pão e água, se calhar não vai haver nada para matar o bicho.
- Ná Pá, com os graúdos que aqui vão! Vais ver que dão no mínimo almoço à maralha, retorquiu o mulato à intervenção de Carlos.
Novamente os dois se quedaram mudos e retornaram aos pensamentos de cada um, enquanto eram embalados pelo barulho dos motores.

Carlos começou a recuar no tempo e a recordar-se de como tudo tinha começado até ali.

Tudo se iniciou em Agosto de 1969 quando das inspecções para o serviço militar, por essa altura com 18 anos, Carlos sonhava em ficar livre da “tropa”, pois tem uma deficiência visual num dos olhos de nascença, para mal dos seus pecados, naquele ano tudo foi aprovado, até um coxo, bem coxo ficou aprovado. A aprovação de Carlos foi para todo o serviço militar, na gíria dos mancebos da altura “ Carne para canhão”.
Estudava em Lisboa, tinha acabado os estudos secundários na capital do Alto Alentejo e para continuar os estudos só na Capital. O exame ao físico era feito no D.R.M. (Distrito de Recrutamento Militar), os das aldeias iriam fazer um bailarico da passagem “se consideravam agora homens”, nalguns a barba mal tinha começado a despontar. Toda aquela fila de mancebos nus era caricata… E quando um capitão médico os mandava dobrar para espreitar o que não vê? Alguns não resistiam e davam a sua gargalhada, para logo um Primeiro enfermeiro, os mandar calar e guturalmente gritar “Silêncio”.
Na saída não existia festa, todos sabiam o destino, as guerras no Ultramar Português se tinha iniciado em Angola em 1961 e rapidamente se propagara à Guiné e a Moçambique, poucos seriam os que ficariam na Metrópole (Portugal), a ver a banda passar. Os de maior sorte, iriam para Timor, Macau ou para S.Tomé, mas eram poucos os que alcançariam estes paraísos, pela certa teriam o continente africano no seu caminho e como companhia a mais fanática companheira durante os dois anos de estadia a “gatilhografa” standard do Exercito Português, a menina mais estimada, a famosa G3.

Lembrou-se de como foi parar á Arma de Engenharia. Tinha feito os psicotécnicos durante a recruta, para tentarem saber das melhores aptidões. O resultado dos mesmos nunca os soube até à semana de campo, a penúltima semana de recruta. Na semana de campo foi indigitado para comandar sempre um grupo de colegas recrutas como ele, esta indicação estava reservada para todos aqueles que o capitão da companhia tinha escolhido para irem para cadetes da Escola de Oficiais Milicianos do Exercito sediada no convento de Mafra.
Numa das noites da semana de campo e em conversa com o Instrutor que era de Tomar uma cidade perto do seu local de nascimento, perguntou-lhe Carlos, o que tinham dado os psicotécnicos o instrutor confidenciou que tinham no registo a Arma de Engenharia. Nessa noite Carlos dormiu pouco, ir para Alferes e comandar um pelotão de homens isso era ir pela certa para profissional do “gatilho”, a outra opção seria continuar a carreira da família e aproveitar a oportunidade de aprender mais um pouco. Na manhã seguinte, Carlos tinha tomado a opção preferia a Engenharia ao gatilho da arma.
Deixou terminar a semana de campo e na volta ao Regimento de Infantaria Nº 5 pediu para falar com o capitão.

- Meu capitão dá-me licença. Perguntou na porta do gabinete.
- Entre instruendo, que pretende.
- Vinha informar o Capitão que sei que estou indigitado para ir para Mafra
O capitão interrompeu o discurso preparado
- E então não está contente
- Bem meu Capitão, também sei que os psicotécnicos me colocam na Engenharia e…
Novamente o Capitão o interrompeu
- Não venha com merdas, se não quer ir para Oficial diga logo, que outros estão em pulgas e na bicha para irem para Mafra.
- Meu Capitão prefiro a Engenharia, pois era o que fazia na vida civil.
- Mas agora já não é civil é militar e militar vai para onde o mandam, retire-se.
Carlos ainda esboçou argumentar mais um pouco, mas o capitão voltou à carga.
- Retire-se, é surdo.
- Carlos deu um passo atrás, bateu a continência, rodou sobre os calcanhares uma meia volta perfeita, bateu com o pé no chão e saiu do gabinete do Capitão.
- Foi ter com o Instrutor que lhe tinha dado o resultado dos testes e deu-lhe a indicação que o Capitão tinha ficado chateado com o pedido.
- É pá o gajo tirou aqui a recruta, depois foi para Mafra e fez uma comissão em Angola, na volta fez contrato por quatro anos, o tipo pensa que os que aqui chegam acham o máximo irem para Oficiais.
- O Gajo deve estar choné ou gostar muito da tropa, eu prefiro a Engenharia, mas se o gajo me foder, nada posso fazer, chumbar em Mafra não, que ainda vou parar a cabo.

Ultimo dia de recruta, mandaram a maralha formar na pequena parada da companhia, já todos tinha Jurado Bandeira.

Com a formatura na ordem de à vontade, começou o Capitão a indicar onde teriam de se apresentar os instruendos para a continuação da instrução militar, agora chamada de especialidade. A maioria ia para Tavira tirar a especialidade de Atirador de Infantaria, quando chegou a vez de Carlos, lhe foi dada a indicação que iria para Sapador de Engenharia, Carlos não se desfez, pois enquanto ia falando o Capitão não tirava os olhos dele.
Veio a ordem de destroçar Carlos dirigiu-se ao Capitão
- Meu Capitão, obrigado.
- Fique sabendo que você é parvo. Foi a resposta seca do Capitão enquanto se dirigia para a secretaria da companhia.
Parvo ou não, antes andar a comandar homens de pá e pica do que andar aos tirinhos na mata, foi este o pensamento de Carlos.

Pelas 13 horas o altifalante da aeronave voltou a funcionar, desta vez para dar a informação que iria ser fornecida uma refeição.

Carlos volta-se para o Cabo-Verdiano, que entretanto tinha adormecido.
- Pá os gajos sempre vão dar de almoço à rapaziada.
- O quê almoço, tá bem, já cá cantava, já. Respondeu o cabo-verdiano meio estremunhado do acordar repentino que a cotovelada de Carlos tinha provocado.


Karl d'Jo Menestrel
12/02/2010

10 fevereiro 2010

Primeiros Momentos * * A Partida

O Boeing 707 dos TAM (Transportes Aéreos Militares)

O autocarro passou a porta de armas onde dois soldados da Polícia Aérea faziam o controle e guarda e parou junto a um enorme hangar que serve ainda de recepção das tropas militares a embarcar.

Carlos nunca andou de avião, sentia o pequeno frio da primeira vez. O serviço militar é assim, “Maria vai com as outras”, alguns o que já eram conhecedores das manobras, começaram a dirigir-se para o grande portão do hangar que estava levemente entreaberto. Ao passar o portão, ficou espantado com o enorme vão livre de todo o hangar, aquilo era enorme, mais parecia um campo de futebol.

Se voltaram a reagrupar alguns grupos, mas a maioria se mantinha isolada, poucos eram os que se conheciam entre eles, coexistiam naquele imenso espaço umas 180 pessoas mais meia dúzia menos meia dúzia, de todas as mais diversas armas e patentes.

Estavam por ali especados, olhando uns para os outros que nem parvinhos que tinham perdido qualquer coisa e agora nada encontravam. Uns se encostavam ás paredes, outros de mãos dos bolsos, mais uns arranjando o dólmen, como se aquele andrajo tivesse por onde lhe pegasse. Carlos se mantinha calmo e em tudo reparava, um retirou a boina ajeitou o cabelo e a recolocou na cabeça com todos os cuidados, como em frente de um espelho estivesse e fosse mostrar pela primeira vez a farda “Feijão Verde” à namorada, Carlos sorriu com a presunção, outro esfregou os sapatos nas calças, por traz das canelas, mais uns que andavam de um lado para o outro não escondendo o nervosismo da sua primeira viajem aérea.

Num repente e pelas 11:00 um altifalante ribombou e uma voz masculina começou a dar informações.

- Linhas Aéreas Militares, Srs. passageiros queiram dirigir-se ao portão azul com o Bilhete que lhes foi entregue na mão.
Carlos não se moveu, deixou que os já sabidos se movessem primeiro, seguindo o velho princípio militar que tinha aprendido no tempo de recruta nas Caldas da Rainha “ Maria vai com as outras, se não sabes, esperas para ver”.

Voltou a voz no altifalante “ Embarque para Luanda e Beira”

Esta era nova para ele, passagem por Angola, “nada mau, telho família por lá, sempre vou dar um abraço, os gajos poderiam ter dito antecipadamente e avisaria a prima”, pensou Carlos, por fim entrou na fila, que isto da tropa é tudo na fila, na linha ou na bicha, não existe opção na escolha.

Chegou ao portão onde todos iam entregando o bilhete de embarque, onde um soldado da força aérea ia retirando parte do bilhete e entregando o restante de volta ao portador.

Caminhou para fora do hangar, sentiu o ar frio na face, parou para ler o que restava do bilhete, uma série de números onde um deles indicava a cadeira onde se sentaria no avião, Carlos disse entre dentes,
- Espero que seja junto a uma janela, sempre dá para ver por onde se passa.

Carlos pensaria que andar de avião é igual a carruagem de comboio!

A fila se manteve agora na direcção do Boeing 707 dos TAM, não teve de andar muito a aeronave estava junto ao hangar.

Reparou então no tamanho do avião o achou enorme, uns soldados levavam uma escada do tipo triângulo recto para junto da porta perto do “focinho” (Cockpit) do avião a fila tinha parado para as manobras necessárias na instalação da escada. Em terra se mantinha um soldado, todo aprumado que ia repetindo cuidado que os degraus estão húmidos enquanto a fila era engolida para o bojo da nave aérea.

Entrou pela primeira vez num avião, sorriu como criança, mostrou o bilhete ao soldado que executava a recepção e este lhe apontou por perto uma cadeira junto a uma janel. Ainda pensou “ ainda há anjos”, colocou o saco entre as pernas e manteve-se de pé vendo qual o comportamento a adoptar com o saco, reparou que alguns abriam a tampa de uma caixa e colocavam lá os haveres de mão. Reparou que ninguém usava mala, só o característico sacão militar. Imaginou que em lugar de bagagens como já tinha visto no Aeroporto da Portela o bojo do avião iria repleto de material militar, ou de material logístico mais urgente.

Novamente um altifalante, se fez ouvir.
Agora um Coronel das FAP informando que era o comande do voo e piloto principal tendo como co-piloto um Tenente-Coronel das FAP, lá disse o nome dele e do seu auxiliar. Deu indicações do tempo em Luanda e que chegariam dentro de 8 horas à capital Angolana.

Logo após ter falado o altifalante da aeronave se fez ouvir, outra voz, desta vez um cabo das FAP dando as indicações necessárias para o aperto dos cintos, iniciando de seguida uma ladainha sobre os procedimentos a ter em caso de alguma emergência.

Carlos vira-se para o passageiro que tem a seu lado e num desabafo.
- Para quê esta merda toda, se a lata cai nem o sebo dá para aproveitar, o outro deu um sorriso amarelo e se mudo estava, mudo ficou.

O avião inicia a marcha rolando lentamente para a pista, Carlos ia espreitando pela janela todo o movimento que se processava no exterior, perto da entrada da pista o aparelho parou, achando estranho o procedimento, tentou encontrar uma explicação para a paragem, muito pouco tempo se passou e lá volta a rolar agora para uma pista bem larga, se ouve o ensurdecedor ronco dos motores e o 707 começa a rolar cada vez mais veloz, percorrendo rapidamente a pista até que saiu de terra elevando-se rapidamente nos ares.

Respirou de alivio e da janela, via Lisboa, toda uma imensidão de casario, passando junto à ponte Salazar ficou admirado com a deslumbrante paisagem que dos ares se podia recortar.

Carlos não tirava os olhos de Lisboa, como de menino deslumbrado fosse. Ainda disse para consigo “Adeus Lisboa, assim que puder eu volto, prometo”. E voltou nem uma nem duas, volta sempre que pode, gosta de se sentar numa das esplanadas na Rua Augusta e ver as “garinas” passar.

Karl d'Jo Menestrel
10/02/2010

08 fevereiro 2010

Primeiros Momentos * * Nos Adidos


8:00 da manhã, Carlos passou o enorme portão de acesso a Lanceiros 2, parou, percorreu com o olhar a enorme parada, procurando para onde se dirigir, por fim percorreu resoluto os longos metros que o separavam da construção principal e que ele achou que poderia ser a companhia de adidos. Reparou numa série de bancos de madeira, ia colocar o saco num deles, mas estavam molhados pela orvalhada da noite e da madrugado, resolveu colocar o saco na calçada e ficou expectante olhando ao redor, um cabo passou perto e Carlos lhe dirigiu a palavra.
- Nosso cabo, onde fica a companhia de adidos.
- Logo em frente. O cabo se aprontava para continuar a caminhada, quando novamente Carlos o interpelou.
- Não vejo ninguém por ali, quando abre a secretaria.
- Já abriu meu furriel, alguns já lá estão.
- Obrigado.
Agradeceu e pegando no saco se dirigiu para onde o cabo indicou. Transitou por uma porta larga e alta que deu acesso a grande sala, onde no final da mesma se encontrava um Primeiro-Sargento e diversos cabos. Entrou numa das filas onde já se apinhavam alguns com a mesma parida sorte. A fila andava rápido, só se ouvia a voz dos cabos e do Primeiro, no rosto de todos estava estampado o sorriso amarelo que a desdita ditava. Carlos reparou que a grande maioria eram jovens como ele, mas por ali estavam todas as patentes de um Exercito.
Chegou por fim a vez.
- Bom dia. Disse o cabo
- Carlos apresentou a documentação que lhe tinha sido entregue uma semana antes em Tancos na Escola Prática de Engenharia.
- Bom dia cabo.
- O Sr. tem de ir ter com o nosso Primeiro.
Carlos olhou para a esquerda onde estava um Sargento, entradote e pesado, saiu da fila e entrou na outra onde no principio da mesma estava de pé atendendo o Primeiro-Sargento.
 Chegou a sua altura de atendimento.
- Bom dia Primeiro. E voltou a apresentar a papelada, dois simples documentos e a sua caderneta militar.
- Bom dia. Retorquiu o Primeiro
- O Senhor já sabe para onde vai, não é verdade?
- Sei sim, vou para férias em Moçambique, respondeu Carlos metendo graça para desanuviar algum nervosismo que no momento sentia.
O Primeiro sorriu
- Espero que se divirta então. Ficando com os dois documento, entregando mais outros dois, mais um papel que mais parecia um bilhete de avião e continuou.
- Todos os documentos são para entregar na 2ª Companhia de Engenharia do Agrupamento de Engenharia de Moçambique, vai para Vila Cabral na Província do Niassa substituir um 2º Sargento a sua comissão é uma rendição individual, estes papelinhos. Apontado para o que parecia ser um bilhete de avião.
-É para entregar na Base Aérea e lhe será dado outro em troca, tenha então umas boas férias Furriel. Despediu-se assim o Primeiro ajeitando-se na brincadeira.
- Deus o oiça, Primeiro, já agora como vou para a Base.
- Um autocarro da Força Aérea os vêem buscar pelas 9:30
- Obrigado e bom dia para o senhor. Se despediu Carlos do Primeiro.
Voltou para a parada, desta vez colocou o saco num banco e se sentou em cima do mesmo enquanto sentia o aconchegante agasalho da gabardine militar.

Voltaram os pensamentos de sair. Ainda estava a tempo de sair pela porta de armas e dizer adeus a tudo, criar nova vida algures, nova identidade, pedir asilo político e sair do tormento de ideias.

Analisava os rostos, desde os mais jovens aos mais graduados, os mais velhos encontravam conhecidos de outras paragens e se juntavam em grupos, mas ele bem reparava que a tranquilidade dos mesmos era aparente. Novos e velhos levavam cigarros aos lábios em baforadas intermitentes, como esses fossem os últimos cigarros da vida.

Perguntou a um capitão se sabia de algum bar por ali, o capitão lhe indicou por onde ficavas o bar. Para lá se dirigiu.

Pediu ao soldado uma sandes de presunto e um refresco de laranja “Sumol”, um pacote de bolachas “Maria” para a viajem. Depois de saborear a sandes e a laranjada, pediu um café, o qual saboreou juntamente com um cigarro, pagou e lhe veio a ideia que seria a última refeição em solo Pátrio.

Chegara por fim o autocarro da Força Aérea, Carlos lembrou-se do irmão, que tinha partido para a Guiné como motorista da Força Aérea, por pouco não lhe vieram as lágrimas no momento, não tinha tido autorização do comandante do curso de minas que estava a tirar na altura, para se poder despedir dele no embarque. O nó que tinha na garganta se desfez quando ouviu chamar pelo nome para entrar no Autocarro pintado de azul.

Faltava um minuto para a hora que o primeiro tinha indicado 09:30.

Saiu o autocarro no sentido contrário que tinha percorrido anteriormente, atravessou Lisboa de ponta a ponta e absorveu todo um sentimento de despedida, olhando para tudo como da última vez se trata-se, lembrou-se da frase do cigano, “Ultima compra em Portugal”, mas logo pensou… puta que o pariu… merda de cigano.

Chegaram frente ao grande portão da Base Aérea de Figo Maduro, paredes-meias com a grande entrada de Lisboa o Aeroporto Internacional , também conhecido por da Portela.

Um último pensamento e ainda dentro do autocarro. “ Não existe volta a dar, agora é ir e voltar”

Karl d'Jo Menestrel
08/02/2010

07 fevereiro 2010

Primeiros Momentos * * Perguntar Ofende?

Perguntar ofende?

Carlos subia a calçada da ajuda para se apresentar em Lanceiros 2, ia taciturno naquela manhã de inverno, recordava as últimas palavras do Pai e da Mãe, pois tinha-se despedido na madrugada, tinha saído da casa que lhe tinha sido até agora, o lar do seu recolhimento. Não queria que ninguém dos seus mais queridos por perto, naquela hora de separação. Momento que ele sentia como o mais delicado de sua vida, era o salto para o desconhecido, para todas as incertezas.

Tinha passado a semana a despedir-se da família, dos amigos e de todos os mais próximos, percorreu seca e meca para chegar perto de todos eles.
No pensamento lhe fervilhava as fontes, ainda estava a tempo de atravessar a fronteira e dar pulo até França ou mesmo a Argélia. Assim se veria livre da teia que lhe estava próximo a cercear toda a mocidade, vinte e dois anos plenos de força, jovialidade e saúde, que iriam descer aos infernos, ainda está a tempo de seguir o que não deixava dormir há algumas noites.

Na íngreme calçada, devidamente ataviado, dentro daquele fato se sentia apertado e o saco de viagem com poucos haveres lhe pesava como peso em excesso, pois se brigavam as vontades do menino e moço.

Acordou num repente dos seus pensamento obscuros, com a chegada do corpulento cigano.
- Senhor quer comprar um relógio? E toca de mostrar duas mãos cheias de relógios por entre uns lenços não muito limpos por tanto manuseio.
Carlos parou, olhou o cigano de alto a baixo, e continuo a subida, o cigano foi no encalço e continuou o cerco.
- Senhor são de excelente marca e dou garantia.
Carlos parou, olhou o cigano nos olhos e lhe retorquiu um seco.
- Não.
Voltando o vendedor contrabandista à carga.
- Não são caros os relógios e lhe fará falta, pois estes têm cronometro.
Novamente Carlos parou, voltou a olhar o cigano e com cara de poucos amigos.
- Meu amigo, o momento não é para comprar relógios, hoje estou imensamente chateado e sabe o porquê não sabe?
- Sei, mas que quer, é a vida.
- É uma vida de porra, nem sei se o que vou fazer é vida.
- Mas isso não o impede de ter um bom relógio.
Carlos não retorquiu e voltou à subida, alargou o passo, o largo portão de Lanceiros já estava perto. Mas o cigano, não queria largar a presa.
- Senhor lembre-se que é a última compra que faz em Portugal.
Aí Carlos desesperou “ última compra em Portugal”. A frase caiu como ave de mau agoiro. Parou novamente, virou-se para o cigano e lhe gritou.
- Porra! Largue-me de mão seu caralho.
O cigano não esperava uma acutilância tal e respondeu baixinho.
- O Senhor desculpe, “Mas perguntar ofende”?
Carlos, sorriu.
- Que tenha bons negócios…Atravessou a avenida e entrou em Lanceiros, onde o Soldado lhe apresentou arma, colocando-se em sentido.

Karl d'Jo Menestrel
07/02/2010